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PEDIDO DE RETRATAÇÃO

Curitiba, 29 de março de 2010.

ACC/Grupo Paulo Pimentel e Prefeitura de Curitiba

ASSUNTO: 317 anos de Curitiba! “Muita coisa mudou”, mas o desrespeito à herança afro continua.

O encarte realizado pelo Grupo Paulo Pimentel, patrocinado pela Prefeitura de Curitiba e distribuído no jornal O Estado do Paraná, em comemoração ao aniversário da cidade, retrata o estereótipo discriminatório clássico difundido a respeito da herança cultural afro-descendente. A primeira frase do encarte diz que “Portugal, Itália, Espanha, Japão e muitos outros países estão presentes em Curitiba”. Fechando o livreto, uma representação visual da composição da população curitibana conta: “1693 Curitiba é fundada sobre a influência de brasileiros, portugueses e espanhóis…” Nem mesmo caricaturados de escravos os africanos são citados!

Na continuidade do primeiro parágrafo da revista fica evidente a invisibilidade das culturas de matriz africana na visão de mundo dos criadores do encarte: “Cada pedacinho da cidade recebeu a influência de imigrantes que deixaram o registro de sua cultura e sua história” (grifo nosso). Os imigrantes são o cartão postal do etnocentrismo gritante que ainda impera na produção de memória da nossa população.

Se isso não caracteriza racismo (crime), então só pode ter sido esquecimento. Ou economia de palavras. Pois estamos falando de 25% de afrodescendentes no Estado do Paraná (no Brasil são aproximadamente 80%, segundo o IBGE de 2000).

As Conferências para a Igualdade Racial já alertaram para os efeitos nefastos deste tipo crônico de “esquecimento”. Os materiais institucionais sobre a nossa identidade precisam de revisão urgente, afinal eles omitem ou citam a presença afro de forma simplista, preconceituosa e discriminatória. Será que o senhor Prefeito, Pai e Candidato à Governador do Estado compreende a dimensão deste fato para dezenas de milhares de crianças e adolescentes paranaenses? Um quarto da população do nosso Estado…

A publicação também registra que a sede da Sociedade Operária 13 de Maio “surgida no período de emancipação dos escravos” ficava(?) na Des. Clotário Portugal.

A igreja do Rosário dos Pretos de São Benedito, construída na época do apartheid declarado, no século XVIII, também foi lembrada (mas apartheid declarado foi em outros tempos, hoje é pior, o cancro do racismo é velado…).

Fala-se ainda dos irmãos Rebouças, engenheiros responsáveis por importantes obras de engenharia. Ufa, uma referência diferente da caricatura… Mas o que dizer das páginas internas, onde os países são descritos separadamente? Fala-se inclusive da África (sic!) e do Egito… Felizmente agora existe a Lei 10.639/03, que determina a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro e indígena no currículo escolar. Os jornalistas do futuro saberão que a África é um continente com mais de cinqüenta países, entre eles o Egito!

Outro marco histórico da cidade, relativo à história dos ascendentes africanos (além da Sociedade 13 de maio e da Igreja do Rosário), é o Pelourinho de Curitiba. Um passo importante a ser dado seria a retirada do orelhão que esconde o marco do Pelourinho, em frente à Praça Tiradentes. Fica a sugestão! Afinal, além do 20 de novembro, o povo afro-descendente poderia ser lembrado também no dia 29 de março, como parte relevante e integrante da história da nossa cidade. Isso mostraria que a prefeitura não se comporta de forma ambígua com relação à população afro. E mostraria, principalmente, o quanto nossa cidade é evoluída tanto no quesito ambiental quanto humano. 

Fica aqui nosso manifesto de repúdio ao encarte “a volta ao mundo em Curitiba”, e nosso apelo ao bom senso dos dirigentes e formadores de opinião. Reivindicamos publicamente uma retratação, na forma da revisão deste material vexatório, distribuído em massa, e da distribuição de outro, equivalente em qualidade e quantidade, valorizando a herança cultural e a dignidade do povo afro, com informações e referenciais positivos e relevantes para a memória da nossa população.

Com nossos sinceros votos de que o apartheid seja extirpado da “capital da cultura européia”, subscrevemo-nos ansiosos por sua resposta.

Cordialmente,

Zelador Cultural Candiero

Presidente do Centro Cultural Humaita

Contato: emaildohumaita@gmail.com | [41] 9161.7961

 

RESPOSTA RECEBIDA

Prefeitura Municipal de Curitiba

Oficio n.o 192/2010-SGM-2

Curitiba.,26 de abril de 2010.

Senhor Presidente:

Em atenção a sua correspondência, datada de 29 de março de 2010 e protocolada sob o n.o01-043502/2010, encaminhamos, anexas, as informações prestadas pela Secretaria Municipal da Comunicação Social, a respeito do encarte publicado no Jornal O Estado do Paraná, em razão do aniversário de Curitiba.

Informamos que a sugestão para retirada do telefone público localizado próximo ao marco do Pelourinho, na Praça Tiradentes, foi encaminhada à Administração Regional da Matriz para providências junto à empresa responsável pela instalação do equipamento.

Agradecemos pela sua carta e pela importante contribuição dessa Entidade para as questões relativas à preservação e valorização da cultura afro-brasileira em nossa cidade.

Atenciosamente,

Ao Senhor

Adegmar José da Silva

Presidente do Centro Cultural Humaita

Curitiba -PR

Prezado senhor

Em relação ao seu ofício com o tema “317 anos de Curitiba! Muita coisa mudou”, mas o desrespeito à herança afro continua, fazemos os seguintes esclarecimentos:

A Prefeitura de Curitiba não teve qualquer ingerência sobre a produção e veiculação do referido encarte, distribuído no jornal O Estado do Paraná. A produção e o conteúdo do encarte foram de inteira responsabilidade do jornal e seu teor era desconhecido da Prefeitura de Curitiba até a publicação.

A Prefeitura de Curitiba limitou-se a veicular um anúncio publicitário no referido encarte. O anúncio da Prefeitura, produzido por uma agência de publicidade, fazia menção a algumas das etnias que formaram Curitiba. Em virtude do pouco espaço oferecido pelo anúncio, nem todas as etnias que formaram Curitiba foram contempladas.

O fato de uma etnia não ter sido mencionada no anúncio publicitário, de forma alguma significa que o Município de Curitiba não tenha respeito ou desconheça a importância desta etnia na formação da cidade.

A Prefeitura de Curitiba tem profundo respeito por todas as etnias que compõem a história da cidade, e todas estas etnias são, eventualmente, citadas ou homenageadas em outros materiais de comunicação, eventos ou espaços do Município.

Um exemplo disso é o Memorial Africano de Curitiba, uma homenagem da cidade ao continente africano, que está em construção na praça Zumbi dos Palmares, no Pinheirinho. A própria existência da praça Zumbi dos Palmares já é uma mostra do reconhecimento do Município de Curitiba à herança afro. Informamos que esta praça passa no momento por obras de revitalização.

O Memorial terá 54 colunas que representarão cada um dos países do continente africano. A ideia é que cada missão oficial da África em Curitiba fixe uma placa na coluna correspondente ao país que representa. Quadradas, as colunas de 4 metros de altura levarão o nome do país, bandeira e a localização no continente africano. As descrições e desenhos serão feitos em azulejos.

Tomamos a liberdade de enviar-lhe uma imagem do projeto do Memorial Africano.

Sem mais para o momento, reiteramos nossos protestos de elevada estima e consideração

Prefeitura Municipal de Curitiba

 

 

PEDIDO DE RECONSIDERAÇÃO

 

Curitiba, 13 de maio de 2010

À Prefeitura de Curitiba – Prefeito Luciano Ducci

À Secretaria Municipal da Comunicação Social

À Administração Regional da Matriz

Ao Grupo Paulo Pimentel

ASSUNTO: 317 anos de Curitiba![1] “Muita coisa mudou”, mas o desrespeito à herança afro continua – II – 122 anos depois da abolição.

“Contra fatos não há argumentos”

Curitiba se coloca como uma capital “de vanguarda” em tantos aspectos… Curitiba poderia se colocar na vanguarda também das questões da igualdade racial, discussão em que os americanos e europeus já se encontram 30, 40 anos à frente. Afinal, as estratégias racistas foram tão bem urdidas, que é muito difícil desfazê-las.

Por ocasião do aniversário de Curitiba foi protocolada uma correspondência relativa ao uso do dinheiro público em campanhas de comunicação que omitem ou citam a presença afro de forma simplista, preconceituosa e discriminatória em nossa cidade. Este problema da invisibilidade crônica das culturas de matriz africana já vem sendo estudado e debatido há tempos, sendo combatido abertamente nas Conferências Municipal, Estadual e Federal para a Promoção da Igualdade Racial. Os Srs. Prefeito de Curitiba e Presidente do Grupo Paulo Pimentel estão ciente de tais fatos?

O estereótipo discriminatório clássico utilizado para apagar a presença afro é o do “escravo da época colonial”. Esquece-se que hoje a realidade é outra e que a participação africana na construção da nossa economia, da nossa cultura e da nossa sociedade extrapola tal caricaturização.

Foi-se o tempo do apartheid declarado. Foi-se o tempo do racismo velado. O tempo da Promoção da Igualdade Racial é agora.

Nossa reivindicação inicial portava sobre a produção de um novo material com mais respeito pela população afro.

Senhores, por favor, reconsiderem. Observem o material produzido. Observem todos os materiais produzidos pela Comunicação Social. Observem o material humano de cada Secretaria. E então perceberão que para se falar em respeito aos afro-descendentes, será preciso mais que investimento em UM patrimônio arquitetônico. É preciso mais que investimento financeiro. É preciso investimento humano e investimento no patrimônio humano.

A prefeitura passou a responsabilidade por nossas reivindicações para o jornal e a agencia de publicidade, o jornal passou a responsabilidade para a agencia, a agencia para o jornalista, o que mostra que está todo mundo mais perdido que cego em tiroteio.

Isso tem que parar!

Em sua resposta à nossa carta, argumenta-se 1) a “falta de espaço” para a inclusão das etnias afro no encarte de aniversário da cidade. Argumenta-se ainda, que 2) o Memorial Africano na Praça Zumbi dos Palmares é a mostra do respeito da municipalidade pelos povos afro-descendentes. Alega-se ainda que 3) a Prefeitura não tem qualquer ingerência sobre a produção e veiculação do referido encarte.

No entanto, sabe-se que para a utilização da logo da prefeitura, todo material produzido passa pela averiguação da Comunicação. Portanto o patrocínio do material foi sim, normalmente, objeto de avaliação pela secretaria de Comunicação. Será que ela não “percebeu” que estava usando dinheiro público de forma “politicamente incorreta”?

Quanto à falta de espaço, na verdade, não havia falta de espaço no encarte, visto que os africanos e os egípcios (sic!) são citados… Mas o argumento é válido, pois estamos cansados de saber que falta espaço para os afro-descendentes…  tanto nas campanhas de comunicação quanto nos quadros profissionais: basta olhar nas Secretarias de Esporte e Lazer, Fundação Cultural, de Comunicação, na FAS, no Meio Ambiente,  na Educação, na Secretaria de Assuntos Metropolitanos, no Memorial da Cidade, na Saúde, na Câmara dos Vereadores, na Assembléia dos Deputados, etc.

E o Memorial Africano… Compreendemos que respeitar as etnias afro neste momento –  ano eleitoral; Copa do Mundo no continente africano – colocando-as na grande vitrine da Linha Verde seja muito importante estrategicamente! Mas o tipo de respeito que temos em mente é de outra natureza.

O que vimos por meio desta solicitar, é que a municipalidade reconsidere sua resposta. Afinal, a produção de um novo material da identidade da cidade, incluindo e valorizando a população afro, distribuído em larga escala, como o anterior, mostrará uma mais ampla noção de “respeito pelas etnias afro”.

Esse passo, seguido do funcionamento efetivo do COMPER, da inclusão de funcionários negros nas Secretarias, da presença afro nos materiais de comunicação, da isonomia para com os negros no aniversário da cidade, da aplicação da Lei 10.639/03 pela Secretaria da Educação, do registro da Sociedade 13 de maio como Patrimônio, da retirada do telefone público que esconde o marco do Pelourinho, na Praça Tiradentes, também mostrará uma mais ampla noção de respeito pelas etnias afro.

Aliás, quando virá a resposta da Regional Matriz sobre a solicitação da retirada do telefone público que esconde o marco do Pelourinho?

Sem mais para o presente, subscrevemo-nos, certos de sua compreensão.

Cordialmente,

Zelador Cultural Candiero

Presidente do Centro Cultural Humaita


[1] Cf. spot do encarte de aniversário de Curitiba no link  http://www.youtube.com/watch?v=g1BW5tEuG9k&feature=youtube_gdata

SEGUNDA RESPOSTA RECEBIDA
 

PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA

SECRETARIA MUNICIPAL DA COMUNICAÇÃO SOCIAL

INFORMAÇÃO

Protocolo: 50-000068/2010

Interessado: Adegmar José da Silva Candieiro

Assunto: Solicita Providências.

SGM -Senhor Superintendente,

Em relação à ausência de pessoas negras ou afro-descentendes no anúncio publicitário do Jornal do Estado do dia 16 de abril de 2010, informamos que este único anúncio não reflete o planejamento anual de publicidade da Prefeitura de Curitiba, o qual prevê dezenas de anúncios, nos quais muitas vezes os personagens são negros ou afro-descententes, haja vista que não existe por parte da Prefeitura qualquer manifestação de racismo, preconceito ou desrespeito a qualquer uma das etnias que formam a cidade.

SMCS, em 11 de maio de 2010.

Diretor Produção de Conteúdo

Secretaria da Comunicação Social

Curitiba, 23 de maio de 2010

Ofício119/2010 – SOLICITAÇÃO DE MATERIAL

Referência: Correspondência de 11 de maio de 2010 (cf. cópia em anexo) 

À Prefeitura de Curitiba

À Secretaria de Comunicação Social

À Direção Produção de Conteúdo

ACC/ Srs. Prefeito Luciano Ducci, Secretário Marcelo Cattani e Diretor Paulo Krauss

Prezados Senhores,

Somos um coletivo de estudiosos e pesquisadores da Arte e Cultura Afro-Brasileira no Estado do Paraná.

Lamentamos que a nossa capital tenha criado para si, ao longo dos anos, uma  imagem de “racismo velado” através da invisibilisação do povo afro-brasileiro e da valorização dos imigrantes. São muitos os exemplos: livros de história, imprensa, vídeos institucionais, como bem o demonstram diversos estudos acadêmicos. Infelizmente, temos testemunhado quotidianamente que a Prefeitura confirma tal produção de discursos em sua Comunicação Visual (talvez inconscientemente, após os séculos de racismo).

Ficamos satisfeitos em saber que a produção de material visual da Prefeitura inclui hoje afro-descendentes em seu planejamento de mídia. Gostaríamos de ter acesso a este material para nossos arquivos e continuidade de nossos estudos. Para tanto, vimos solicitar:

  1. Cópia em DVD de todo o material publicitário da Prefeitura (todas as secretarias e Fundação Cultural), desde o início da gestão do ex-prefeito Beto Richa;
  2. Informações relativas à data e local de cada campanha – período de tempo e data em que o material ficou em exposição; e veículos midiáticos onde foram expostos (ex.: jornal, revista, ônibus, clear channel, TV, rádio, etc.).

 

Tal medida se faz necessária para desconstruirmos a lamentável imagem de “racismo velado” que vimos testemunhando na “capital mais européia do Brasil”. Ficaremos honrados e satisfeitos se pudermos contar com sua atuação para desfazer tal imagem.

Estamos trabalhando na desconstrução da “opressão identitária” aos afro-brasileiros paranaenses. Desta forma, contamos prestar um serviço público, desfazendo as bem urdidas teias do racismo, após séculos de discriminação. Conforme o artigo 5º da constituição brasileira, o processo de construção de um futuro mais justo é dever de todos.

Certos de sua compreensão, subscrevemo-nos.

Atenciosamente,

 Zelador Cultural Candiero

Centro Cultural Humaita

“África, Europa e América percorreram juntas uma

tormentosa trajetória, especialmente nos últimos

cinco séculos. O futuro, para a barbárie ou para a luz,

também terá que ser construído juntos.”

Prof. Amauri Mendes Pereira

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Um pensamento em “Aniversário de Curitiba – a “capital da cultura européia”

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