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Primeiro de Maio – Dia do Trabalho, dos Trabalhadores e Trabalhadoras. O que dizer?

Veja a situação do líder do Partido dos Trabalhadores, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Veja as estratégias abolicionistas da “esquerda” e as convicções conservadoras e neoliberais da “direita”.

Respire fundo e tome fôlego (para não desanimar) ao pensar no racismo herdado do período colonial e na situação da população negra desde o pós-abolição.

Há 130 anos foi abolida a escravatura.

Cem anos depois foi promulgada a “constituição cidadã”. Há 30 anos, desde 1988, a igualdade de acesso aos direitos foi prevista em lei.

Legislação trabalhista, para desespero dos proprietários. Em 2010, Estatuto da Igualdade Racial… Cotas na Universidade, em cargos públicos.

Penso na obra de Jessé Souza, sociólogo que pôs abaixo a sociologia e reinterpretou o Brasil à luz de pressupostos mais realistas como, por exemplo, a influência da escravidão e suas consequências na vida de quem trabalha (e de quem usufrui do trabalho alheio).

Quando, 120 anos depois da abolição, o líder do Partido dos Trabalhadores assume a presidência do país e cria cotas para que as “vozes da África pudessem se fazer ouvir minimamente pelo gigante adormecido e guardado zelosamente pelos chicotes dos senhores de escravos e de seus capitães do mato, pelas leis feitas pelos seus representantes no parlamento e pelas bênçãos dos sacerdotes escravagistas em nome da salvação cristã”, os discursos conservadores ganham força total. (Juremir Machado da Silva. Raízes do Conservadorismo Brasileiro: a abolição nna imprensa e no imaginário social, 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.)

O discurso abolicionista alegava que a propriedade real, verdadeira, natural, é aquela que recai sobre as coisas e não a que recai sobre as pessoas. Os escravizadores alertavam, então, que “não era chegado o tempo”, era preciso cautela e gradualismo, prudência e circunspecção. Ainda nas palavras de José de Alencar:

“Como todas as instituições sociais que tem radicação profunda na história do mundo e se prendem à natureza humana, a escravidão não se extingue por ato de poder; e sim pela caduquice moral, pela revolução lenta e soturna das ideias. É preciso que seque a raiz, para faltar às ideias a seiva nutritiva”.

Enquanto isso, os escravizados de ontem – trabalhadores de hoje – que esperem trabalhando.

A abolição da escravatura tirou dos patrões o “direito de propriedade” sobre “seus” negros, “suas” negras… E eles queriam ser indenizados. Sobre a Lei do Ventre Livre, o então Deputado Barros Cobra, alegava a incontestável lógica da lei da propriedade:

O fruto do ventre escravizado pertence ao seu senhor tão legalmente quanto a cria de qualquer animal do seu domínio”.

Foram décadas de manobras jurídicas para impedir a abolição, considerada pela sociedade brasileira (leia-se “pelos proprietários”) “inconstitucional, antieconômica e desumana”. Sim!

Quando, em 1888, a elite deu-se conta de que o salário mínimo é mais lucrativo do que o sistema escravocrata, rendeu-se… E criou cotas para imigrantes. Vale ressaltar que o sistema de cotas já tinha sido usado para apoiar quem tivesse condições de construir engenho: estes ganhariam uma cota de 120 escravos cada.

Os discursos do período da abolição ainda se repetem hoje. Tanto os discursos dos conservadores e liberais, quanto dos abolicionistas. Estes continuam falando em reforma agrária, em promoção de condições iguais para a população negra e pobre; aqueles continuam tentando usar o Estado a seu favor e evitar a interferência em seus negócios particulares, em seus lucros e seus meios de alcança-lo, sobretudo quando se trata de trabalho, energias disponíveis, espaços decisórios…

As elites e o seu pensamento permanecem no poder geração após geração…

Estes “homens bons”, as elites, enfim, a “sociedade”, na defesa do interesse do capital, fica horrorizada perante a ideia de igualdade para nós, todos e todas. O fantasma “vermelho” já assolava os proprietários na época da abolição. Descobri, estes dias, com um eleitor do “Messias”, que “esse papo de Direitos Humanos é uma estratégia da ONU para implantar o comunismo no mundo”…

E os trabalhadores? E trabalhadoras? Elegemos um presidente, reelegemos, elegemos sua sucessora, reelegemos. Vimos uma transformação real. Sonhamos com educação e saúde de qualidade quando encontraram o pré-sal.

Agora estamos testemunhando o refluxo, a resposta dos que se julgam ainda “nossos proprietários” e nossos “benfeitores”. Por acaso não sabem eles que nós não somos mais “deles”. Quando ouço a expressão “minha mulher”, “minha empregada” e penso na noção de propriedade que ainda perdura na “sociedade”, respiro fundo e me animo para trabalhar o dobro e cada vez mais firme para ajudar a criar harmonia e bem estar social, porque se depender de quem defende os interesses “proprietários”, o lucro e o vil metal, voltaremos rapidinho para a senzala.

Coragem! Força! Ao trabalho.

Há braços.

 

PRIMEIRO DE MAIO

O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento

Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construcão.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma subita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Nao sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua propria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele nao cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Excercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edificio em construção
Que sempre dizia “sim”
Começou a dizer “não”
E aprendeu a notar coisas
A que nao dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uisque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução

Como era de se esperar
As bocas da delação
Comecaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
– “Convençam-no” do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.

Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porém, por imprescindível
Ao edificio em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Nao vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martirios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construido
O operário em construção

(VINÍCIUS DE MORAES, 1956)
*Aos olhos atentos da multidão, Vinícius de Moraes leu, emocionado, nas comemorações do Primeiro de Maio de 1979, o poema “Operário em Construção”, de sua autoria, a convite do então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, *Luiz Inácio Lula da Silva*

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